É necessário não entrar em confronto direto com os formadores de opinião e intelectuais, mas é imprescindível abrir o diálogo a partir de leigos, sacerdotes e agentes de pastoral bem preparados para ir ao debate público, e, de maneira educada e convincente, mostrar a importância dos valores humanos e religiosos que devem ser mediados por uma concepção antropológica personalista. A Igreja como um todo deve despertar e criar credibilidade para colaborar com os diversos segmentos da sociedade, oferecendo uma preciosa ajuda no processo da evangelização da cultura como um todo. Precisamos ter uma consciência apurada, e, de modo particular, atingir todas as dimensões da sociedade, em especial o cristão, ao analisar de forma crítica o risco que o secularismo radical traz no seu bojo ideológico, ou seja, o esvaziamento do homem em sua dignidade. Existe uma íntima relação entre espiritualidade e cultura, querendo ou não admitir, pois o homem é um ser religioso por essência e não por acidente. Há algo a ser considerado com seriedade: no centro de cada cultura existe certo consenso sobre a natureza da realidade e do bem moral, enquanto diz respeito às condições para a prosperidade humana.
Os novos conceitos em voga estão na contramão de uma civilização do futuro que edificará a pessoa
Curiosamente percebe-se a forte influência dos modismos ideológicos que são diferentes e por isso mesmo atraem e se fortalecem. Na verdade essas correntes culturais novas, destituídas de uma fundamentação mais convincente e objetiva, parece terem como principal objetivo o desmantelamento dos ensinamentos morais, dos valores e virtudes que sempre, no contexto histórico da humanidade, edificaram e deram sustentabilidade no avanço da sociedade. O testemunho dos cristãos em geral, mormente dos católicos, é de extrema importância, pois o mesmo “(...) não só propõe verdades morais imutáveis, mas propõe-nos precisamente a chave para a felicidade humana e a prosperidade social”(Gaudium et Spes – nº10).
João Paulo II, em um de seus discursos disse: “(...) Quando uma cultura tenta suprimir a dimensão do mistério último e fechar as portas à verdade transcendente, inevitavelmente se empobrece e torna-se presa fácil de uma leitura reducionista e totalitarista da pessoa humana e da natureza da sociedade” (apud- João Paulo II – in ibidem-p.7). É um dever da Igreja, como fiel seguidora de Cristo e de seu ensinamento, o papel crucial na luta contra correntes culturais que, com base num individualismo extremo, tentam promover conceitos de liberdade separados da “Verdade moral”.
Como preparar as novas gerações num contexto tão polêmico e medíocre como o que vivemos hoje? Há espaço para um futuro melhor? O que subjaz na consciência de muitos comunicadores, sabendo que são formadores de opinião, ao transmitirem, através de seus programas televisivos, um mundo sem objetivos, sem moral e sem normas claras? Será que novamente estão a ditar as normas do que é ético e moral para a economia? Que pena! É uma tragédia! Essas são as conseqüências da cisão entre economia e sociedade, já abordada nos dois livros que publiquei: “A Economia a serviço do homem” e “Economia e Espiritualidade: reformando o mundo dos negócios”. Temos uma luta árdua pela frente!
A igreja é desafiada a preparar agentes de pastoral de alto nível para os novos sinais dos tempos, no século XXI
Os modismos ideológicos que circulam em todo o planeta, frutos do fenômeno da globalização e disseminados pelos diversos meios de comunicação de massa, que cometem a morte de culturas autóctones e grupos étnicos minoritários, forçam ainda mais a formação de líderes com uma visão bem mais apurada em termos de conhecimento da raiz epistemológica que subjaz aos modismos que circulam. Muitos destes não possuem nenhuma utilidade prática por não terem sequer conteúdo para ser analisado com profundidade. Existem por serem diferentes, embora outros, a médio e longo prazo, vão minando a saúde de uma sociedade madura, sustentável em todos os níveis. Ainda há aqueles que não respondem ao sentido existencial das pessoas, tendo como conseqüência, colocar em jogo a saúde psico-somática e religiosa das pessoas, ou seja, atingindo a essência humana de forma trágica. É preciso conhecer e responder a questões de grande relevância, não só em nível da fé cristã, mas da própria sobrevivência da humanidade. Há correntes que circulam livremente nesse conceito de pseudo-liberdade, que se alastrou fortemente já no século passado assentando raízes, cujo veneno colocará, com o tempo, toda a humanidade, em especial as novas gerações, em situação de desespero.
Bento XVI, em seu pronunciamento aos Bispos dos Estados Unidos da América, disse: “(...) A preparação de líderes leigos comprometidos e a apresentação de uma expressão convincente da visão cristã do homem e da sociedade permanecem a tarefa principal da Igreja (...) como componentes essenciais da nova evangelização, e essas preocupações devem modelar a visão e os objetivos de todos os programas catequéticos em todos os níveis” (ibidem – p.7). Ora, isso significa, na prática, a inserção dos leigos na participação política, social e econômica, a fim de ajudá-los a compreender a sua responsabilidade pessoal, oferecendo um testemunho público da sua fé, especialmente ao se tratar de questões morais, próprias do nosso tempo. O Papa cita de forma clara e objetiva aquilo que manifesta através de sua preocupação: “O respeito pelo dom divino da vida, a proteção da dignidade humana e a promoção dos direitos humanos autênticos”. Bento XVI conclui seu discurso da seguinte maneira: “A esperança que os ‘sinais dos tempos’ nos oferecem é motivo para renovar os nossos esforços intelectuais e morais de toda a comunidade cristã, mormente, a católica ao serviço da evangelização da cultura e da edificação do amor”.
É a partir desse pressuposto que sempre defendo a tese, sem abandonar a evangelização popular, que esquecemos algo importante na mudança dos rumos da atual civilização: a formação dos intelectuais, das culturas como um todo, e, particularmente, dos que formam a opinião do povo.
Pense e reflita! |  | |