Google Orkut YouTube twitter gramado

| |  |
| Texto publicado em 15/02/2012* - 15:30, quarta-feira. | por Senador Cristovam Buarque | | *Atenção: você está lendo CONTEÚDO DE ARQUIVO. Publicado há mais de 3 meses! |  De Russell a Hessel Para os mais jovens parece estranha a importância da Guerra do Vietnã na consciência da geração que já passa dos 60 anos de idade. Mas naquele tempo, muitos de nós sabíamos mais da geografia daquele distante, pequeno e exótico país, do que dos nossos. Ainda mais estranho parece que aquela guerra, feita por gigantescos aviões e bombas, contra minúsculos orientais que se enfiavam pés descalços por intricados labirintos subterrâneos, tenha sido ganha, em parte, por um inglês com 90 anos de idade, um filósofo chamado Bertrand Russell.
|
 Além da formidável resistência dos vietcongs, foi a consciência mundial criada por Russell que despertou o mundo para a desumanidade daquela injusta e bárbara guerra, onde os bárbaros eram os ricos, cultos, desenvolvidos e tecnológicos norte-americanos.
Bertrand Russell, Prêmio Nobel de Literatura em 1950, criou o Tribunal para Julgar os Crimes no Vietnã e caminhando ao lado de jovens despertou o mundo para a tragédia vietnamita. Seu Tribunal não tinha qualquer poder legal, mas uma imensa força moral capaz de encurralar os dirigentes da grande potência norte-americana, com seus aviões e bombas, mas sem uma base ética para a guerra.
Quarenta anos depois, outro senhor, ainda mais velho, está despertando os jovens do mundo para indignarem-se contra outra guerra também maldita: a guerra da má economia, que destrói a natureza, provoca desemprego, desarticula os serviços públicos, condenando, sobretudo, os jovens a uma vida sem futuro, como os jovens soldados norte-americanos no Vietnã.
É Stéphane Hessel. Com um pequeno livro, intitulado “Indignai-vos”, desperta os jovens em reação aos crimes contra a humanidade cometidos pelos responsáveis pela economia. Publicado em diferentes idiomas, o livro incentiva jovens em diversos cantos do mundo a ocuparem praças e ruas.
Para se transformar no Russell dos dias atuais, Hessel precisa dar um passo adiante e convocar o mundo para criar outro Tribunal. Desta vez, para julgar os crimes contra a humanidade, provocados pelo modelo econômico, pelo tipo de crescimento que constrói muros, exclui multidões, apartando os que têm dos que não têm acesso aos modernos bens e serviços. Um modelo econômico que escraviza a humanidade, uma parte pela dívida contraída para poder aumentar o consumo de bens supérfluos, a outra pelo desemprego que impede de consumir até os mais essenciais bens de consumo para uma sobrevivência digna.
O mundo tem um Tribunal de Haia que julga legalmente os crimes contra a humanidade: torturas e genocídios. Mas não tem um Tribunal que, mesmo sem poder legal, tenha a força moral para dizer que também é crime contra humanidade destruir a natureza, tratar com irresponsabilidade o sistema financeiro internacional e as finanças dos governos, deixar os jovens sem emprego e os velhos sem aposentadoria. Na guerra do Vietnã, o alvo de Bertrand Russell era o presidente norte-americano e seus ministros da Defesa e do Sistema Industrial Militar. Hoje, no mundo global seriam governantes das grandes potências, como o G-8 e Comunidade Européia, Presidentes de Banco Centrais, ministros da área econômica, banqueiros, especuladores e industriais, grandes construtoras.
O Tribunal Hessel seria um conjunto de pessoas como ele próprio e outros nomes com a força moral de pessoas como Gro Harlem Brundtland, da Noruega; Kumar Pachauri, Índia; Ricardo Lagos, Chile; Mário Soares, Portugal; Edgar Morin, França; Frederico Mayor, Espanha; Amartya Sen, Índia; Domenico De Masi, Itália; Sebastião Salgado, Brasil; Kofi Annan, Gana; Boutrous Boutros-Ghali, Egito; Helen Clark, Nova Zelândia; Desmond Tutu, África do Sul; Ignacy Sachs, França, entre outros homens e mulheres de consciência e respeito, que sem força do Estado, sem poder de polícia, nem política, apenas com a credibilidade moral diriam: BASTA de brutalidade do sistema econômico, como Russell disse um BASTA à brutalidade da guerra do Vietnã.
Bertrand Russel não tinha internet nem redes sociais. Ele precisava caminhar nas ruas. Russel não teve a chance de uma Cúpula como a "Rio + 20", quando a sociedade civil hoje, no lado de fora da sala do poder legal, poderá lançar o grito da força moral de Basta, com o simbolismo de criar o Tribunal Hessel para julgar os crimes contra a humanidade, cometidos em nome de um crescimento econômico imoral, ineficiente e vazio existencialmente. |  | |
 Leia também    |